13 de out de 2010

SWU expõe as contradições de quem vê sustentabilidade como oportunidade de marketing

Publicado originalmente por: www.revistasustentabilidade.com.br por Silvia Dias


Podia ser um divisor de águas, mas será lembrado apenas como mais um festival de música. E mal organizado.

Starts With You - e eis que está acabando o potentoso festival musical que assumiu por nome uma equivocada frase em inglês (afinal, não começa com você, mas com todos nós: uma das diferenças da atual visão de mundo para a visão da sustentabilidade é justamente enxergar o todo, as correlações e corresponsabilidades).

Se o equívoco ficasse apenas no nome bacanudo, poderíamos ter tido um exemplo concreto de como fazer entretenimento de forma sustentável. Mas SWU foi apenas mais um festival de música criado e executado a partir dos velhos paradigmas que não levavam em conta o impacto da ação sobre o ambiente e sobre as pessoas. Pior: foi um festival muito mal organizado.

Como testemunharam vários participantes pelo Twitter (ver, em especial, o http://twitter.com/swuvaitomarnocu), eis que um festival supostamente dedicado à sustentabilidade:1) não tinha lugar para parar bicicleta, apenas carro; cobraram preços abusivos de estacionamento, alegando que seria uma forma de incentivar o uso do transporte público, mas tenho dúvidas, pois se essa fosse a intenção eles teriam providenciado transporte público; porém...

2) porém o festival não negociou com as empresas de ônibus para que colocassem mais carros para fazer a viagem até Itu;

3) e também não forneceu transporte coletivo entre a fazenda onde ocorria o evento e a rodoviária de Itu, transformando a volta do primeiro dia de evento em um verdadeiro caos;

4) vendia água a R$ 4,00 ao invés de oferecer água filtrada;

5) oferecia copo de plástico junto com a lata de cerveja, a R$ 7,00 cada;

6) e se não pensou em reduzir os itens a serem descartados, tampouco cuidou de oferecer latas de lixo em quantidade suficiente para dar conta do descarte gerado pelos 50 mil frequentadores;

7) não se deu ao trabalho de oferecer um menu diferenciado, de menor impacto ambiental, e repetiu o velho padrão de salgadinhos-hamburgueres a preços abusivos;

8) aliás - detalhe insano! - os policiais que fizeram a revista dos participantes tiraram todos os alimentos que as pessoas levaram, formando inacreditáveis pilhas de comida que não seriam aproveitadas e obrigando os participantes a adquirir alimento no evento a preços exorbitantes; a menos que eu me engane, não existe qualquer legislação que apóie esse tipo de conduta arbitrária que, portanto, é ilegal, além de nada sustentável;

9) a compra de comida e bebida se dava pela aquisiçao de fichas, como em quermesse escolar, sendo que não avisaram os frequentadores que as fichas de um dia não valiam para os demais dias... - minha escola estadual de periferia sabia fazer serviço melhor!;

10) insistiu na política da desigualdade econômica, implantando uma inviável pista VIP.

Como vários blogues de pessoas que foram ao evento testemunham, fica muito difícil passar adiante qualquer mensagem de sustentabilidade quando ela não é praticada por quem a prega. Não adianta colocar instalação com garrafas PET recicladas ou estandes de ONGs se não houve cuidado, na organização, para reduzir o lixo, a pegada de carbono, a desigualdade social entre os participantes. Nem o tal do Fórum se salvou, pois não era transmitido fora da tenda onde ocorria (pois é, não havia telão!) e, por isso, só alcançou um percentual muito pequeno de participantes.

Entre feridos e desapontados, quem mais perdeu foram as empresas que se envolveram com esta ação. Pois a falta de consistência com o que significa sustentabilidade foi claramente identificada pelos participantes e não prejudicou o conceito em si, que permanece desejável. Qualquer dúvida a este respeito, favor consultar o fenômeno Marina no primeiro turno das eleições presidenciais. Prejudicou, sim, a imagem dos organizadores e patrocinadores que, ao financiar abordagens rasas e oportunistas, perdem em credibilidade.

A quem interessar possa: por trás do oportunismo travestido de sustentabilidade existe um publicitário famoso, chamado Eduardo Fischer, que atende a conta da Monsanto - aquela, das sementes transgênicas. E como tuitou a jornalista @flaviadurante: "Só vou acreditar que o Eduardo Fischer se preocupa com a sustentabilidade quando a agência dele abrir mão da conta da Monsanto".

#SWUFAIL!

8 comentários:

Murilo disse...

Estranho é que esperavam algo diferente.

O que me deixou mais interessado foi o boato de que o Multishow ("A Vida sem Roteiro.") cortou o momento em que o Rage Against the Machine colocou um boné do MST. Dizem até que a direção do evento cortou o audio nessa hora. Hehehe.

Vitório Tomaz disse...

Eu vi o comunicado do Multishow e nem desconfiei, mas pesquisei agora e achei este "boato" aqui: http://blogs.estadao.com.br/estadao-no-swu/2010/10/10/multishow-diz-que-interrompeu-transmissao-por-falta-de-seguranca/ e não me pareceu tão boato assim.

Reginaldo Nepomuceno disse...

Acabei de ler no blog da SuperInteressante algumas das principais falhas e um pseudo-acerto: http://super.abril.com.br/blogs/superlistas/8-grandes-erros-e-1-pequeno-acerto-do-swu/

Não consigo pensar no SWU sem pensar no "greenish" que várias empresas fazem pra se passar por sustentáveis. Pode parecer dor de cotovelo por não ter ido, mas quero ver o que este evento realmente muda na vida de quem foi.

Natália Albertini disse...

É realmente uma lástima que um evento como esse, com aparentemente grande potencial, tenha saído um fiasco assim.
Isso só prova como as mentes continuam fechadas, bem como os bolsos, né...

Natália A.

Rafael Figueiredo disse...

Estranho é que esperavam algo diferente. [2]

É inacreditável que um grande número de pessoas realmente levou esse papinho de sustentabilidade a sério. Eu fui ao SWU, fiquei no camping, mas pra ver os shows, especialmente Queens of the stone age e Regina Spektor. Eu sabia que o festival seria completamente insustentável e extremamente caro.

E não acho que alguma marca saiu de lá manchada, não conheço sequer 1 pessoa que tenha viajado pra lá por conta do "conceito" do evento. Conheço, sim, um grupo de, pelo menos, 10 pessoas, no qual me incluo, que ficaram MUITO putas por se deslocarem até Itu só para poderem assistir suas bandas favoritas. Detalhe: algumas vieram de avião.

Rafael Figueiredo disse...

Tenho pena também dos desavisados que caíram no conto do Woodstock.

Conceição disse...

Acho q há 2 pontos a serem considerados. Um é q o uso marketeiro da sustentabilidade tem perna curta. E a qtdade de comentários negativos lançados na net mostra isso. Outra é q não é fácil fazer um evento sustentável: o q significa isso? Alguém já fez algo desse porte no Brasil? Exige aprendizado. O caminho não é simples e somente na próxima edição - se houver uma - é q saberemos se a organização aprendeu com os erros ou não. Por enqto o Eduardo Fisher e cia. ficam devendo.

Raphael Maestro disse...

Na minha opinião, tudo poderia ser previsto, se é que não foi, em se tratando de um evento tão grande e com um Show do Rage Against The Machine. Muita gente acumulada é sinal de que algo certamente dará errado. Sei que o evento foi espetacular para grande parte do público, mas de "pequenos imprevistos" é que surgem os grandes inconvenientes. Frases feitas são desagradáveis, mas acredito que essa vem bem a calhar.

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