25 de abr de 2011

Quanto tempo deste feriado você passou no trânsito?

Este post é de autoria de Natalia Albertini.

No último domingo, ao retornar do Guarujá a São Bernardo, o painel informativo da rodovia indicava: "Imigrantes - Operação Subida" e, em seguida, "Anchieta - tráfego normal".

Bem, "tráfego normal", pensamos, "então subir pela Anchieta compensa". Arriscamos a Anchieta.

Deixando o cansaço e a raiva passados de lado e resumindo, levamos mais de boas duas horas num percurso que, normalmente, levamos menos de uma.

Durante todo o congestionamento na extensão da estrada, com o barulho de motores ligados e a visão de uma mata cinzenta, algumas reflexões me passaram pela cabeça. O que via eram duas pistas completamente entupidas de automóveis ronronando, de caminhões expelindo fumaça preta e objetos sendo arremessados para fora de janelas de algumas Mercedes Benz.

Prestando atenção na Mata Atlântica que nos acompanhava por todo o caminho, me assustei em como ela parecia desesperada, em como galhos caídos pareciam mãos estendidas, pedindo ajuda. Assustada com essa visão, empurrei o rosto para o outro lado da rodovia e o que vi foi um trilho de trem com vagões sujos estacionados, aparentemente inativos pelo menos por todo o dia.

Aí pensei em como nosso meio-ambiente anda devastado, em como a preocupação com ele tem se tornado cada vez maior na mídia e em como ainda não são tomadas ações reais para melhorar a situação.

Grandes atos são esperados, grandes acordos são fechados, grandes promessas são feitas (e quebradas), mas o mais básico ainda não foi compreendido pelos governantes e nem pela sociedade: a mudança começa por baixo, isto é, a manutenção do planeta não depende exclusivamente do acordo de Copenhague ou da obediência ao Protocolo de Kyoto, mas, sim, também de ações individuais e menores, como, por exemplo, não atirar lixo às vias.

Não há culpa a atribuir a alguém em especial. Mas se me permitem enumerar alguns fatores que pioram a ocasião: a falta de boas condições em transportes públicos, o egoísmo, o vício por automóveis e a facilidade que, hoje em dia, se tem para adquirir um carro. Tudo isso, se colocado junto, se transforma naquele congestionamento do domingo.

Até mesmo vislumbrei a possibilidade do incentivo às viagens de trens. Por que não?

Boas campanhas de incentivo poderiam persuadir muitos a andarem de trens. Desde escolas passando isso às crianças, desenvolvendo assim cidadãos com uma mentalidade melhor estruturada quanto à preocupação quanto ao meio-ambiente até propaganda direcionada, impulsionando indivíduos a tal viagem.

Não somente os trens, mas a melhoria e a facilitação de todo o transporte público colaboraria com a diminuição do tráfego.

Minha reflexão partiu da rodovia, mas, claro, chegou às vias das grandes cidades, onde pegar trânsito é agora rotina. Todos sabem que para irmos a qualquer lugar que demande maior deslocamento, deve-se sair de casa com no mínimo duas horas de antecedência.

Eu posso, como prova viva, dizer o quão difícil é levantar às cinco horas da manhã numa segunda-feira e pensar que vou tomar três conduções lotadas para chegar à universidade e, ainda por cima, gastar perto dos quinze reais por dia para isso (isso porque ainda tenho carteirinha de estudante e pago só meia passagem)! Sei muito bem a vontade enorme que se tem de possuir um carro, porque assim, mesmo se demorarmos duas ou três horas num congestionamento, há conforto. Os maus cuidados com o transporte público e o preço alto para conforto nenhum nos dão essa vontade enorme.

Por que não fazer melhorias consideráveis (não somente a instalação de pequenas TVs e ar condicionado, mas, sim, transportes que não utilizem combustíveis poluentes e mais unidades, para suprir o grande número de passageiros) nessa área, evitando assim o uso excessivo de automóveis, os congestionamentos e os prejuízos tanto ao ambiente quanto aos condutores?

Ainda, que tal desenvolver uma boa ciclovia que desse acesso a vários pontos da cidade? O incentivo à prática do ciclismo como transporte poderia ter o apelo ambientalista e, também, se mais interno, tangente à forma física, perda de peso e tonificação de músculos, por exemplo.

Para ajudar, há a publicidade muito atrativa e convincente dos carros de todos os estilos e preços. Dos mais básicos aos mais luxuosos, é fácil se adquirir um veículo hoje em dia. Pode-se parcelar um carro em dez, quinze anos. E além de tudo, seus preços não são inalcançáveis, são, até, bem acessíveis, já que a produção é absurdamente intensa.

Todos sabemos que as fábricas automobilísticas produzem muito, mas acho que colocar isso em números torna mais palpável e assustador. Assim, incluo aqui a informação que recebi há alguns dias: certa fábrica multinacional tem uma filial na cidade de São Bernardo do Campo. Por dia, essa filial produz nada menos do que mil e trezentos (1.300) carros, ou seja, num ano, são produzidos mais de 300.000 carros. Não sei a você, mas isso me espantou muito.

Em meio a todos esses pensamentos, olhando para os vagões estacionados, inúteis, ouvi alguém do carro ao lado reclamando alto algo do gênero "eles deveriam abrir mais pistas, assim liberava o trânsito!". E este é um dos outros problemas: tentar solucionar com as saídas mais fáceis, rápidas e baratas de todas. Abrir mais pistas resolveria o trânsito, mas e a Mata que jazia ali, silenciosa e ofegante? Simplesmente afastá-la ainda mais, apertar mais um dedo em volta de sua garganta?

O que nos falta para amenizar – não “solucionar”, posto que o problema parece agravado demais para ser completamente resolvido – é a mudança de comportamento e visão de mundo da sociedade contemporânea. É claro que mudar todo um sistema de crenças e ações não é fácil e rápido, exige tempo e trabalho duro, e é justamente nesse ponto que a propaganda entra em ação, comunicando, convencendo e persuadindo. É nessa trilha que a propaganda deve caminhar, conscientizando os indivíduos dessa mudança estritamente necessária, ajudando-os a enxergar mais longe, o futuro de suas próximas gerações, e não somente a satisfação instantânea de ter um motor potente e bancos de couro.

Ficam aqui, então, reflexões de uma estudante sobre o futuro de nosso habitat, sobre as expectativas que coloco nos governos atuais e futuros, sobre como nós, indivíduos da sociedade, podemos mudar nossos próprios hábitos e também levar sugestões aos representantes para que ações mais concretas sejam feitas.

Fica aqui, assim, o desespero de uma estudante que por fim pensou que aquele que digitou ao dispositivo "Tráfego Normal" no painel de fato achava aquele tráfego normal.

Isso não espanta?

3 comentários:

nati disse...

Eu pensei exatamente como você quando levei 3 horas pra subir no sábado da praia, qnd eu levaria 1 e pokinho... pq raios, eles escrevem tréfego normal então ?!?!

Reginaldo Nepomuceno disse...

É simples: 2h de congestionamento já é tão corriqueiro que os técnicos pararam de considerar uma calamidade.

Dem disse...

Na minha opinião trata-se sim de assunto do governo! Eu tenho casa de verao em Mongagua e lembro de quando criança ver trens de carga e de passeio cruzarem a Rof. Pe Manoel da nobrega e aos poucos as linhas ferreas serem literalmente abandonadas! Isso é muito triste tendo em vista que o transporte ferroviario tem um custo/beneficio muito em conta e que, do ponto de vista do turismo/ meio-ambiente, traria grandes feitios e resolveria grande parte do problema de trafego em épocas sazonais. Cabe aos administradores/gestores públicos repensarem este modelo e investirem em tecnologias funcionais.

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