17 de nov de 2009

Até onde vai o cinismo de um anúncio imobiliário?

Hoje na Folha de S. Paulo há um comentário lúcido e muito bem escrito pela profa. Noemi Jaffe da pós em teoria literária da PUC-SP sobre um certo anúncio imobiliário recente. Seria interessante se pudéssemos ter acesso a esse anúncio, mas a descrição dele já vale para entendermos o contexto.

O cinismo ganha campo, por Noemi Jaffe
NO FINAL do século 18, Goethe escrevia, no poema "Hermann e Dorothea": "(...) O peito mais livre bateu com pulsações mais puras,/ Quando despontou o primeiro brilho do novo Sol,/ Quando se ouviu falar dos direitos humanos, a todos comuns,/ Da liberdade entusiástica e da louvável igualdade!/ Cada um esperou então viver a si mesmo (...)".
Em novembro de 2009, no aniversário de 20 anos da queda do Muro de Berlim, lê-se, em anúncio de uma grande empresa imobiliária: "Revoluções não nascem com este nome. Elas começam com um pequeno grupo de pessoas que ousam imaginar um mundo diferente do passado. Pessoas que se recusam a permanecer confinadas dentro dos muros das velhas verdades. (...) Na web, todos saímos da plateia e viramos atores. É o fim do reinado do para todos e o início da república do cada um. O fim dos clichês. O fim da média. O fim da solução-universal-para-todos. Só os imóveis se esqueceram de mudar".
O anúncio continua, apregoando que os novos imóveis de sua incorporadora permitem arranjos individualizados, como um grande home theater, um banho "comme il faut", um "piano na sala e um ofurô no quintal".
A frase final, em tom grandiloquente, garante ao leitor esta possibilidade: "Você já pode viver na sua época".
O que teria acontecido desde "a liberdade entusiástica" e do "cada um esperou viver a si mesmo" de Goethe até "o fim do reinado de todos e o início da república do cada um" e "do banho "comme il faut'" do anúncio imobiliário? O que teria acontecido para que os princípios da revolução burguesa se transformassem em anúncio de caros apartamentos?
O fenômeno linguístico e filosófico (em que subjaz, como sempre, um forte aparato ideológico) que permite essa apropriação de um princípio ético por um princípio que o contraria (aético e, nesse caso, exclusivamente lucrativo) é um velho conhecido: chama-se cinismo. Uma distorção que faz com que a vantagem econômica de muito poucos, para muito poucos, com muito poucos, seja semanticamente disfarçada de derrocada do reinado de todos e de vitória da república do cada um.
Tudo se distorce nesta formulação: o que seria para todos, ou seja, a democracia, passa a ser chamado de reinado. E o que seria o corolário do individualismo passa a ser considerado república.
Para começar, não pode haver, etimologicamente, república do cada um. A república, como o nome diz, é a coisa pública, algo que os apartamentos caros reconfiguráveis "comme il faut" certamente não são.
O artigo "o", contido na expressão "do cada um", também é revelador.
Como se a preposição "de", sozinha, sem o artigo, não fosse suficiente para designar a singularidade e a liberdade que os indivíduos agora possuem de fazer suas próprias revoluções, com seus home theaters gigantes e seus ofurôs no quintal. Não é mais "de" cada um, é "do" cada um.
A revolução agora é destruir os muros dos reinados de todos. Esse "reinado" -também empregado falaciosamente- seria o das verdades totalizantes. "Para todos" virou sinônimo de clichê, de média, e seria, inversamente, uma ação coercitiva. Personalizar apartamentos, sim, é que seria agora a nossa liberdade revolucionária, em parte concedida pela web, que nos transforma de plateia em atores.
O cinismo ainda não é um fenômeno irreversível, alastrado irreversivelmente por toda a sociedade. Existem muitas possibilidades e espaços de inteligência ativa. Mas a distorção, principalmente linguística, está presente -e é preciso dar-se conta dela.
O cinismo penetra capciosamente pelas brechas da língua, das imagens e do dia a dia e, quando percebemos, estamos usando a mais nova marca de sabão em pó porque ela nos liberta da massificação.
Algo muito nocivo acontece quando os conceitos podem ser distorcidos com essa facilidade, nessa extensão e com esse grau de difusão. Quando o espantoso não espanta mais, é preciso, com urgência, reler Goethe.

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